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Mostrando postagens de março, 2009

Mate-me, por favor

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monólogo do último ato (Aproxima-se do espelho. Acendem-se as luzes opacas) Eu sou o seu lado negro A transgressão Sua ausência de medo A obsessão e hipocrisia Eu sou sua embriaguez O impulso Nublando sua lucidez E sua submissão desmedida Eu sou o ateu e demagogo Sem compaixão Sufocando o beato fervoroso O terror das famílias Eu sou sua maldição A violência O sangue em suas mãos E o dedo frio no gatilho Eu sou o seu desamor A auto-sabotagem O causador da dor Atentando contra sua vida Eu sou sua versão bestial O vazio no seu coração Seu vínculo ao mal Mate-me, por favor. (Disparo. Espelho quebrado. As luzes são apagadas) Baixa o pano sobre o fim do último ato

A Balada Dos Filhos Da Noite

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Claro,  os puros dormem  em seus quartos doces  e nas ruas perambulam  os filhos da noite  fazendo o que melhor sabem  e podem fazer A noite protege  as suas enigmáticos crias  que escancaram  os portões da vida  zombando audaciosamente  das regras e sem medo  de morrer  Testemunharam as lágrimas  sob a maquiagem dos palhaços Escutaram blasfêmias  das línguas beatas E Conhecem bem  o rumo para todas as encruzilhada  Ao menos sabem  quem são  enquanto os puros que dormem, não.

Um dia, sem querer

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Um dia, sem querer você lembrará de mim quando sintonizar o rádio e casualmente, aquela música tocar lembrará das suas chaves mergulhando na minha direção e dos passos apressados ao teu abraço lembrará do enorme prazer de estarmos a sós e nossos olhos pontilhando incontáveis astros no espaço Um dia, sem querer você lembrará de mim sendo o mel dos teus sonhos e o fel da tua insônia até depois daquela música acabar.

Guerra Civil

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Cidadãos em pânico Cárcere residencial, terror e paranóia A violência voa pelas ruas Balas perdidas se encontram na areia movediça social Guetos sujos de sangue e lavados por lágrimas Sirenes da podre polícia pelo tráfico e corrupção berram nas bocadas Flagelo da guerra civil não declarada.

Sete segundos

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A maturidade me faz amar Bob Dylan, tanto quanto Patativa e me atrasar para o último trem, diariamente Assim como sentir a necessidade de aceitar que tudo muda a cada sete segundos, inevitavelmente.

Invasão

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Alguém entrou no meu quarto, caminhou pelos lados, ligou o rádio e lançou meus dados de números virados Em seguida, entristeceu Alguém abriu o cadeado do meu baú, onde guardava baralho cigano, coisas que não precisava e um mapa para lugar nenhum Alguém vestiu minhas roupas, calçou meus sapatos, apagou a luz, tateou o escuro, deu de cara no meu mundo, chorou por meio segundo e partiu.

O Trigésimo Salto

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Encontro os doze cravos guardados no fundo do alforje e se cheguei até aqui inteiro é porque tenho a louca sorte dos filhos de dezembro Meus verdes anos entre a Rua Amazonas e a Usina Santa Terezinha demoraram pra amadurecer Menino melancólico no topo da árvore abraçando cedo a solidão Menino traquinas derrubando borrachas para ver as saias das meninas Comportamentos antagônicos como faces de uma moeda Beijando sentimentos platônicos Cresci na rota dos aventureiros Engolindo os raios do sol e correndo no escuro da noite Deus me deu o misterioso dom de beber veneno e cuspir água benta Por isso olho sem nenhum medo no fundo dos olhos do capeta, cortejando o pecado e a inocência Deslizo sob doses incandescentes imaginando curvas nas nuvens que desenho além do horizonte, sem qualquer traço de prudência Degolando a dureza da saudade perto de mim e longe de tudo Criando versos cínicos e absurdos Abrigando sonhos dentro do peito Para dar meu trigésimo salto Acordado no mar do meu leito.

Corra Criança

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Corra criança por dentre a chuva Não tema escorregar no calçamento molhado Pule (saltite pela lama) e deixe o medo de lado Grite sua infância sem nenhum acanhamento Passe as mãos nas árvores e lamba os dedos Não ligue pro uniforme escolar engomado Corra criança, pois ser adulto é muito chato Chute a água suja para molhar os sapatos Você pode rir e ser o que quiser como quiser Até virar este mundo louco de cabeça pra baixo Corra criança e sonhe! Só não fique aí parado.

Tarde fria de verão

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Improvisava vaporoso frio junino naquele verão cinza de janeiro, em que o sol se evadia por trás da visualidade nevoenta Eu procurava atribuir imagens naquelas espessuras de chuva Enxergava figuras calmas, angelicais, melancólicas... Multiformes “Quantas vidas um homem pode ter numa única existência?” Perguntava-me, tropeçando em minúsculos grãos de areia Aquela imagem ainda tatuada nas minhas retinas dilatadas aquela voz ainda tabelava em todos os lados dos meus tímpanos Caía a chuva esparsa que escorria abundantemente em minha face Já que não conseguia chorar, as nuvens faziam isso por mim.

Novena

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Bem longe, muito longe As beatas rezam baixinho na novena Muito longe, bem longe Orações encantadas em seus rosários.

Solitaire

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Só, por tempo suficiente para ouvir apenas meus próprios passos Pela casa, na rua, entre uma multidão, no meio da chuva... Só, por tempo suficiente para sentir na alma o forte frio do ártico e me acostumar a andar sem calor humano, no meu rumo solitário.

Epifania

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Deixo a luz lunar lamber meu rosto e acendo a primeira das sete velas antes de despertar mais uma vez Estive no centro e pelas margens perto, mas longe do seu alcance Quis fazer certo o que é errado agora quero não errar no certo Tive um pesadelo onde sofria e um sonho onde você sorria Acredite, eu ainda não acordei As lembranças são enganosas mas não tenha receio de nada O anjo do esquecimento virá Acendo a última das sete velas Deixo a luz lunar lamber meu rosto.

Olhos D'água

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Eu vesti meu melhor sorriso e minhas luvas de estimação  Para cumprimentar pessoas que para mim não significam nada  Onde você estava, olhos d’água? Gargarejei e me embriaguei e causei prejuízos à sua reputação  Enquanto ouvi a marcha dos tolos e dancei de roupa encharcada  O que você ouviu olhos d’água? Arranquei todas as figuras suspensas do meu quadro de ilusão  E estive a meia-dúzia de passos de ter a minha vida sepultada  Por que não estava comigo, olhos d’água? Existem quase sete bilhões de pessoas nesse velho mundo cão  Que nunca vão ler nenhuma das minhas palavras dilaceradas  Você leu alguma delas, olhos d’água? Não percebe que apenas mendigo um pouco de atenção? Não, você nada vê, quando está com os olhos cheios de lágrimas.

Indagações Siderais

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Criança, dependurado nos galhos na árvore em frente da minha casa olhando a infinidade das estrelas eu viajava na luz, em veloz imaginação: De onde viemos e pra aonde vamos? e se em algumas daquelas constelações existissem inteligências mais evoluídas que um dia,aqui, contribuíram à vida? Minha mente navegava através do espaço em longínquas e ingênuas indagações siderais.

Ouvindo os Reclames do Diabo no Velho Bar da Encruzilhada

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Não era noite de verão, mas foi num sonho quente, que conduzi cegos através de campos minados nas ruas, até o bar da encruzilhada iluminada pela luz fria da lua, onde encontrei e sentei com Lúcifer para tomarmos uma doses. Inspirado, Ele tocou velhas canções endiabradas no seu violão, acompanhado pelo coral dos homens sem visão e gentis. Ouvi atentamente, cada frase compassada por solos manhosos. Em pé na mesa, bati palmas, curtindo os baiões e os blues mefistólicos, dançando ao lado, uma gata de córneas douradas, decotada... Provocante e sexy, ela recitou versos perversos dedicados ao diabo. Após sua apresentação Belzebu voltou à mesa parecendo preocupado. Convidou a garota maliciosamente para ficar sentada ao nosso lado. Eu, curioso, perguntei-lhe qual sua relação com tanto caos e destruição, desigualdade, fome, miséria e todas as mazelas que nos assolam. A resposta veio num reclame quase mudo, entre dentes crestados: - Meu chapa, Eu estou cansado dessas coisas e quero aposentadoria....