quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Duodécimo


Dezembro,
o sol me abraça
e você percebe
que sou
escorregadio
como o verso
que se abstraí

Na calçada quente,
um vira-latas
late que o tiquetaque
dos relógios
sacrifica lentamente
homens e animais.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Caldo de cana




Pelo cheiro do bagaço da cana,
com estalos de ximbras,
rolando em poeira de brigas,
e tempero na manga,
na velha colônia da Holanda,
aprendi a paquerar as meninas
e nadar nas águas findas,
nos dias de luto e carnavais,
sobre os ossos dos meus ancestrais.

Decrépita Usina Santa Terezinha,
eram apenas férias,
mas as tuas ruínas
parecem conter as primeiras
e últimas lembranças
dos bons tempos da minha infância.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Oração do Dia dos Mortos



Bem-Aventurados os finados:
Belos e feios,
Ricos e pobres,
Heróis e vilões,
Ateus e beatos

Bendita seja a grande justiça
Que nivela todos os homens
No reino dos mortos.

Samba da Mulher de Plástico



Não a culpo Maria
por ser tão dissimulada
e ambiguamente fria

Não a culpo Maria
por gostar de brega
e não ler poesia

Não a culpo Maria
por ser tão materialista
é comum hoje em dia

Não a culpo Maria
por encher a cara de álcool
pra poder cair na orgia

És fruto da apatia doméstica
das telenovelas
e amante da hipocrisia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Anjo Caído



Sob a claridade de luzes afiadas
que ultrapassam o miocárdio
dos seres humanos e seres alados
atingindo lembranças degredadas
de histórias reais e inventadas
sinto-me como um anjo caído
profanando o efêmero paraíso
exibido pelo sadismo religioso
no seio do capitalismo mentiroso
que do mundo tolo arranca gritos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tablado



Ele, que era um
amante à moda antiga
aprendeu como
expectador,
coadjuvante
e protagonista
que romances
são como peças teatrais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Janela






Clara manhã
de agosto
Nem frio,
nem calor,
alegria
ou tristeza

na certeza
que a vida,
queira ou não,
passa rapidamente
ou pouco a pouco.

domingo, 23 de agosto de 2009

Hermético


A José Inocêncio Rosa


Encovada sala
de antimatéria
velho desfigurado
por incontáveis rugas

“O que está em baixo
é como que está no alto”

Ouço o inaudível

“O que está no alto
é como que está em baixo”

Vejo o invisível

Paz Profunda.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ausência


E apesar de todas
as coisas permanecerem
equilibradas na paisagem
esta absurda saudade
parece privar a minha vista

então esfrego os dedos
nas linhas do horizonte
como se o universo inteiro
estivesse escrito em Braile.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

João-ninguém



nascido sob signo pusilânime
no ano da mais terrível
de todas as grandes secas

batizado com qualquer nome
sem ter tido amor de leite
ou mãe pelas tetas
somente a tirania do pai
que era um bêbado infame

criado com água e farinha
mendigando restos de pão
no calor do cotidiano brutal
de uma vida dura e espinhenta

banido da própria terra
e pela crueza da necessidade
abrasileirado sem compaixão
embolando na cidade grande.

sábado, 11 de julho de 2009

Transmutação



Se de dentro para fora
o pensamento
sob o negro céu
é sonho

de fora para dentro
os sentimentos
aos raios do sol
são cinzas.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Inocência Roubada




Como perversões eletrônicas
que giram em torno de calçadas
e salas de reboco em sci-fi

meninas colecionam pecados
nos rastros das avenidas
e defloramentos emocionais

vendidos na parafilia das madrugadas.

Selênico



As faces da lua
despencadas nas
ondas tragicômicas
do meu mar de ilusões
não cabia nos teus olhos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Memorare



Cavalgando com ela
sobre tetos de vidro,
misticismo e absinto

o giro do mundo
era muito mais
do que tempo,
mais do que
profecia, ciclos
ou signos

o caos parecia
uma bela festa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Delírio


O doido corria
para arremessar
ao céu

a luz que
roubava dos
vaga-lumes

e emprestava
as estrelas.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Blues dos Falsos Romances




Não tenho cicatrizes no corpo
tenho-as na alma tatuadas
cedo aprendi que a vida
parece com jogos de azar
e esconde veneno no riso
mentiroso de bocas amoladas
quando menos esperamos
fica mais fácil se enganar
certa vez conheci uma mulher
disfarçada em pele de devota
e entendi porque tais tipos
têm deixado o inferno lotado
na lama no fundo do poço
eu quase morri afogado
mas o Senhor teve piedade
e me deu outra chance
foi como se Ele dissesse:
“Siga e seja mais vigilante!”
o diabo guarda armadilhas
em falsos romances.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Noturnal


Além da vadiagem
eu só tinha meio centavo
guardado no bolso
(que permanecia calado)
sob o neon
que escorria velozmente
refletindo nos meus olhos
as delícias da vida noturna.

domingo, 14 de junho de 2009

Xeque-mate



Não há mistério,
nem cor de remorso
sobre as palavras
que não voltarei a dizer
nem sequer ossos
de meus sentimentos
que hoje foram
apropriadamente mortos

Jogo fora as passagens
para Pasárgada
e a possível amizade
com o Rei
Assim como o desejo
pela dama, aventura,
montaria em burro brabo
e cama
que nunca vou ter.

domingo, 7 de junho de 2009

Asas Flamejantes





Fugindo do cárcere
que junta os irmãos
do sangue ao tédio
do dia-a-dia
em queda livre
por delírio fui ferido
e por desengano perfurado

Cerrei meus olhos
no limiar que sucede
a percepção
da vila adormecida
e vesti roupas negras
diante dos estilhaços
de um espelho quebrado

Li pensamentos
e decifrei ilusões,
esqueci meu nome
e enfrentei a morte
nada será como antes

Além dos arames farpados
da realidade
eu quero o risco
de estar perto do sol
e voar com as minhas
asas flamejantes.

domingo, 31 de maio de 2009

Toada Íntima


Espinhos rasgam-lhe
alma e mãos
até as pontas dos dedos
frios e molhados
em nome do amor
de pétalas negras
que mantém seu coração
preso e torturado
exalando o odor venéreo
da desilusão.

domingo, 24 de maio de 2009

Ayahuasca






Solta os cabelos
quero teu beijo:

doce incógnita

Estaremos ligados
ao cordão de prata

quero vê-la sorridente,
nua, leve e descalça
pelas margens do rio

até chegarmos ao campo
das árvores encantadas

entoaremos cânticos indígenas
através das aldeias

na tradição
milenar
das tribos abençoadas.

Pauperum spiriti est regnum coelorum




Os sinos tocam!
As badaladas, os trovões e a chuva, rasgam o entardecer.
A freira entra na igreja. Hábito molhado. Meio-riso baixo, abafado.
Ela senta no confessionário. O bispo irá ouvi-la, à antiga.
- O que houve minha filha?
A voz do prelado nunca lhe pareceu tão afeminada.
Numa tom de devoção afetada, ela diz satisfeita:
- Cometi pecados mundanos.
- Mas o pecado é humano, demasiadamente humano
- E agora, eu abomino profundamente a igreja.
- Minha filha, você é uma freira.
Ela continua:
- Dizem que somos o depósito de lixo da história e talvez seja mesmo verdade. Cometemos os mais terríveis e absurdos enganos.
- Não atentai contra a santa decência do clericalismo.
- Sempre demos as costas a ciência e ao que a filosofia ensina.
- Não insista minha menina!
- Sempre estivemos do lado mais conveniente e tapamos os ouvidos para os gritos dos inocentes.
- Os livros que tem lido estão lhe fazendo mal. Filha, o povo precisa dos nossos dogmas.
- As pessoas precisam permanecer dopadas? Limitadas aos cabrestos de concepções forjadas?
- Basta! Você está se perdendo em perigosas indagações.
Os trovões dançam assustadoramente nas nuvens, dando boas-vindas ao anoitecer. Ela chora e conclui a confissão:
- Quanto aos pecados mundanos: Eu tenho me encontrado com o padre recém ordenado... Decidimos abandonar a igreja para nos entregarmos ao amor.
O bispo estremece dentro do confessionário, levanta e grita com horror:
- HERESIA!
A ex-freira, também se ergue e diz triunfante:
- Não há abominação maior do que a pedofilia que você trancafia com suas vestes dentro da sacristia.
Então, ela arranca violentamente seu crucifixo do pescoço e joga-o aos pés do bispo. Rasga o hábito e saí correndo nua pelo corredor da igreja blasfemando entre risos.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Idealização



Corroído pelas
relações fraudulentas
no mesmo ímpeto
que fez Pigmaleão
esculpir a imagem
da mulher ideada
esboço cada um
dos seus traços
e imploro a Afrodite
para materializá-la

Mas nada acontece
e ela para sempre será
só uma página desenhada.

Soneto Cangaceiro



Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião do brilho morticínio
Comandou muitos cabras da peste, almas sem coração
E desmoralizou a macacada da volante policial no sertão
Esfregando nas regras da justiça as alpercatas do latrocínio

Foi do Padinho Ciço que veio a patente da guarda nacional
Pra enfrentar a Coluna Prestes no grande território cearense
Só resolveu fazer melhor uso da regalia de bom penitente
Pra amedrontar quem quer que fosse à ponta fria do punhal

Parecia dar ordem e lapada até na vegetação inclemente
Espalhou reinado escabroso na seca de sol incandescente
Acobertado pelos coiteiros que enchiam suas cartucheiras

O Capitão fazia explodir no céu a munição do rifle potente
Amava Maria que era mulher bonita e de sangue quente
Vaidoso para se deixar filmar e fotografar com sua cabroeira.

sábado, 9 de maio de 2009

Na mesa do bar




Na mesa do bar tinha uma dose de uísque
tinha uma dose de uísque na mesa do bar
tinha uma dose de uísque
Na mesa do bar tinha uma dose de uísque.

Sempre me lembrarei desse detalhe
nas retinas de minha vida tão solitária.
Sempre me lembrarei que na mesa do bar
tinha uma dose de uísque
tinha uma dose de uísque na mesa do bar
na mesa do bar tinha uma dose de uísque.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Cicatriz


O que se foi

nas ruínas do
teu olhar
de foto
em sépia,
cacos
das palavras
repetidas,
mágoas por
mentiras ditas

Restou intacto

no completo
imaterial
do afeto
imensurável
entregue
em mãos
e amargo
do último
beijo dado.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Luz Vermelha


Casa dos Prazeres
Nova Brasília, s/n
Pode entrar
Beba e coma
o que puder pagar

Aluga-se:
amores
de trinta minutos

Seja você
velho ou moço
rico ou pobre
certo ou torto

Sob a luz vermelha
tu és rei
e elas
nunca reclamam
nem sequer
dizem não.

domingo, 19 de abril de 2009

Busca


E segue,

nunca pára:

Faz-me regar

plantas carnívoras

e morder

as maçãs da serpente

Como uma maldição,

pesado fardo

Cortando fumaça

e perfume barato

em lugares

onde procuro

e nunca acho

aquilo em que devo

crer.

Destino


18h15, 30 de novembro de 2007

estou às margens do Rio Tamisa

a Inglaterra nunca pareceu tão fria



07h21, 09 de março de 1992

Bananeiras,PB. Ela entra na classe

parece intocável, de tão linda



10h15, 05 de maio de 1999

Ela está casando na Igreja Matriz

o felizardo é o meu maior desafeto

tenho que esquecê-la de uma vez



21h09, 15 de dezembro de 2007

Eles discutem e chegam à conclusão

que a separação é a melhor opção



23h20, 23 de maio de 2008

Ela dorme ao meu lado

e a observo com satisfação.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ao meu velho



Quando nasci,
chorei
sorri
estavas aqui
como uma
antiga árvore
observando
os frutos
sob sua
sombra


Enquanto crescia,
caia
levantava
ainda estavas aqui
como uma
antiga árvore
observando
os frutos
sob sua
sombra

Hoje, meu avô
tu abandonas
a matéria perecível
que vira pó
e caminhas através
da eternidade
Enquanto sua sombra
permanecerá aqui.


Antonio Cândido do Nascimento, 12/06/1915 – 10/04/2009.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ser ou não ser




Vês além das sombras
na caverna,
mentiras dos jornais
e comerciais da TV?

Não é postiço
o teu riso cordial,
sentimentalismo,
sacra devoção
ou
pesar exibido
do velório ao
funeral?

Escutas algo além
do lixo
nos rádios,
mentiras dos jornais
e comerciais da TV?

És o que queres
ou
o que querem?

O que tu consomes
e o que
te consome?

O que é real
no murmúrio
do teu mundo?




sábado, 28 de março de 2009

Mate-me, por favor


monólogo do último ato
(Aproxima-se do espelho. Acendem-se as luzes opacas)

Eu sou o seu lado negro
A transgressão
Sua ausência de medo
A obsessão e hipocrisia

Eu sou sua embriaguez
O impulso
Nublando sua lucidez
E sua submissão desmedida

Eu sou o ateu e demagogo
Sem compaixão
Sufocando o beato fervoroso
O terror das famílias

Eu sou sua maldição
A violência
O sangue em suas mãos
E o dedo frio no gatilho

Eu sou o seu desamor
A auto-sabotagem
O causador da dor
Atentando contra sua vida

Eu sou sua versão bestial
O vazio no seu coração
Seu vínculo ao mal
Mate-me, por favor.

(Disparo. Espelho quebrado. As luzes são apagadas)

Baixa o pano sobre o fim do último ato

segunda-feira, 23 de março de 2009

A Balada Dos Filhos Da Noite




Claro,
os puros dormem
em seus quartos doces
e nas ruas perambulam
os filhos da noite
fazendo o que melhor sabem
e podem fazer

A noite protege
seus enigmáticos filhos
que escancaram
os portões da vida
e querem a possibilidade
de realizar o impossível

Assim eles viveriam felizes
para todo o sempre:
zombando audaciosamente
da situação servil
e sem pressa
para morrer

Eles viram lágrimas
na maquiagem dos palhaços
Escutaram blasfêmias
das línguas sujas das beatas
Medo e mentira
na farsa dos sacerdotes

Conhecem bem
o rumo perdido
que leva os poetas malditos
ao bar da encruzilhada
Sabem quem são
enquanto os puros que dormem,
não.

domingo, 22 de março de 2009

Um dia, sem querer



Um dia, sem querer
você lembrará de mim
quando sintonizar o rádio
e casualmente,
aquela música tocar

lembrará das suas chaves
mergulhando na minha direção
e dos passos apressados
ao teu abraço

lembrará do enorme prazer
de estarmos a sós
e nossos olhos pontilhando
incontáveis astros no espaço

Um dia, sem querer
você lembrará de mim
sendo o mel dos teus sonhos
e o fel da tua insônia
até depois daquela música acabar.

Guerra Civil




Cidadãos
em pânico

Cárcere residencial,
terror e paranóia

A violência voa
pelas ruas

Balas perdidas
se encontram
na areia movediça social

Guetos sujos de sangue
e lavados por lágrimas

Sirenes da podre polícia
pelo tráfico e corrupção
berram nas bocadas

Flagelo da guerra civil
não declarada.

sábado, 21 de março de 2009

Sete segundos




A maturidade
me faz amar Bob Dylan,
tanto quanto Patativa
e me atrasar
para o último trem,

diariamente

Assim como
sentir a necessidade
de aceitar
que tudo muda
a cada sete segundos,

inevitavelmente.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Invasão



Alguém

entrou no meu quarto,
caminhou pelos lados,
ligou o rádio
e lançou meus dados
de números virados

Em seguida,
entristeceu

Alguém

abriu o cadeado
do meu baú,
onde guardava
baralho cigano,
coisas que não precisava

e um mapa
para lugar nenhum

Alguém

vestiu minhas roupas,
calçou meus sapatos,
apagou a luz,
tateou o escuro,

deu de cara
no meu mundo,

chorou por meio segundo
e partiu.

domingo, 8 de março de 2009

O Trigésimo Salto




Encontro os doze cravos
guardados no fundo do alforje
e se cheguei até aqui inteiro
é porque tenho a louca sorte
dos filhos de dezembro
Meus verdes anos
entre a Rua Amazonas
e a Usina Santa Terezinha
demoraram pra amadurecer
Menino melancólico
no topo da árvore
abraçando cedo a solidão
Menino traquinas
derrubando borrachas
para ver as saias das meninas
Comportamentos antagônicos
como faces de uma moeda
Beijando sentimentos platônicos
Cresci na rota dos aventureiros
Engolindo os raios do sol
e correndo no escuro da noite
Deus me deu o misterioso dom
de beber veneno e cuspir água benta
Por isso olho sem nenhum medo
no fundo dos olhos do capeta,
cortejando o pecado e a inocência
Deslizo sob doses incandescentes
imaginando curvas nas nuvens
que desenho além do horizonte,
sem qualquer traço de prudência
Degolando a dureza da saudade
perto de mim e longe de tudo
Criando versos cínicos e absurdos
Abrigando sonhos dentro do peito
Para dar meu trigésimo salto
Acordado no mar do meu leito.

Corra Criança


Corra criança
por dentre a chuva
Não tema escorregar
no calçamento molhado
Pule (saltite pela lama)
e deixe o medo de lado
Grite sua infância
sem nenhum acanhamento
Passe as mãos nas árvores
e lamba os dedos
Não ligue pro uniforme escolar
engomado
Corra criança,
pois ser adulto
é muito chato
Chute a água suja
para molhar os sapatos
Você pode rir e ser o que quiser
como quiser
Até virar este mundo louco
de cabeça pra baixo
Corra criança e sonhe!
Só não fique aí parado.

Tarde fria de verão


Improvisava vaporoso frio junino
naquele verão cinza de janeiro,
em que o sol se evadia
por trás da visualidade nevoenta
Eu procurava atribuir imagens
naquelas espessuras de chuva
Enxergava figuras calmas, angelicais,
melancólicas... Multiformes
“Quantas vidas um homem pode ter numa única existência?”
Perguntava-me, tropeçando
em minúsculos grãos de areia
Aquela imagem ainda tatuada
nas minhas retinas dilatadas
aquela voz ainda tabelava
em todos os lados dos meus tímpanos
Caía a chuva esparsa que escorria
abundantemente em minha face
Já que não conseguia chorar,
as nuvens faziam isso por mim.

sábado, 7 de março de 2009

Novena



Bem longe,
muito longe


As beatas rezam
baixinho na novena

Muito longe,
bem longe

Orações encantadas
em seus rosários.

Solitaire




Só,
por tempo suficiente
para ouvir apenas
meus próprios passos
Pela casa, na rua,
entre uma multidão,
no meio da chuva...

Só,
por tempo suficiente
para sentir na alma
o forte frio do ártico
e me acostumar
a andar sem calor humano,
no meu rumo solitário.

Epifania



Deixo a luz lunar lamber meu rosto
e acendo a primeira das sete velas
antes de despertar mais uma vez

Estive no centro e pelas margens
perto, mas longe do seu alcance

Quis fazer certo o que é errado
agora quero não errar no certo

Tive um pesadelo onde sofria
e um sonho onde você sorria
Acredite, eu ainda não acordei

As lembranças são enganosas
mas não tenha receio de nada
O anjo do esquecimento virá

Acendo a última das sete velas
Deixo a luz lunar lamber meu rosto.

Olhos D'água




Eu vesti meu melhor sorriso
e minhas luvas de estimação
Para cumprimentar pessoas
que para mim não significam nada
Onde você estava, olhos d’água?
Gargarejei e me embriaguei
e causei prejuízos a sua reputação
Enquanto ouvi a marcha dos tolos
e dancei de roupa encharcada
O que você ouviu olhos d’água?
Arranquei todas as figuras suspensas
do meu quadro de ilusão
E estive a meia-dúzia de passos
de ter a minha vida sepultada
Por que não estava comigo, olhos d’água?
Existem quase sete bilhões de pessoas
nesse velho mundo cão
Que nunca vão ler nenhuma
das minhas palavras dilaceradas
Você leu alguma delas, olhos d’água?
Não percebe que apenas mendigo
um pouco de atenção?
Não, você nada vê,
quando está com os olhos
cheios de lágrimas.

Indagações Siderais




Criança, dependurado nos galhos
na árvore em frente da minha casa
olhando a infinidade das estrelas
eu viajava na luz, em veloz imaginação:
De onde viemos e pra aonde vamos?
e se em algumas daquelas constelações
existissem inteligências mais evoluídas
que um dia,aqui, contribuíram à vida?
Minha mente navegava através do espaço
em longínquas e ingênuas indagações siderais.

Ouvindo os Reclames do Diabo no Velho Bar da Encruzilhada



Não era noite de verão, mas foi num sonho quente,
que conduzi cegos através de campos minados nas ruas,
até o bar da encruzilhada iluminada pela luz fria da lua,
onde encontrei e sentei com Lúcifer para tomarmos uma doses.
Inspirado, Ele tocou velhas canções endiabradas no seu violão,
acompanhado pelo coral dos homens sem visão e gentis.
Ouvi atentamente, cada frase compassada por solos manhosos.
Em pé na mesa, bati palmas, curtindo os baiões e os blues mefistólicos,
dançando ao lado, uma gata de córneas douradas, decotada...
Provocante e sexy, ela recitou versos perversos dedicados ao diabo.
Após sua apresentação Belzebu voltou à mesa parecendo preocupado.
Convidou a garota maliciosamente para ficar sentada ao nosso lado.
Eu, curioso, perguntei-lhe qual sua relação com tanto caos e destruição,
desigualdade, fome, miséria e todas as mazelas que nos assolam.
A resposta veio num reclame quase mudo, entre dentes crestados:
- Meu chapa, Eu estou cansado dessas coisas e quero aposentadoria.
O problema está no próprio homem e nas coisas que ele cria.
Não sou de todo culpado e nunca deixaram isso devidamente claro.
Calou por meio minuto, jogou para cima a fumaça do bazeado pra dizer:
- Garanto que boa parte do dolo é dessa dama sentada conosco,
Permita apresentá-la: Caro amigo, essa é a Intolerância de sobrenome
Ganância e que presta serviços usando o pseudônimo de Miss Vaidade.
Desde a aurora dos tempos somos casados e ela vem abusando da humanidade,
Manipulou a verdade, assim como também sabotou a religião com dogmas,
capitalizou a sorte nos pecados e fez dos cifrões o alimento da insanidade.
Estou te confessando isso e digo ainda que se não fosse a “Lei de Deus”,
juro a você que Eu já tinha me divorciado e encerrado esse compromisso.
Acordei meio tonto e muito suado, sei que deve ter sido por causa do uísque e do calor que esbaldavam voluptuosidade por todos os lados daquele lugar refinado.
A Igreja inventou o inferno, Dante pintou o cenário e quem crê nisso tudo é um otário.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A lágrima do Pierrot




A Colombina, alheia
entre rostos risonhos
fantasias e máscaras,
não o percebia

O Pierrot, contido
entre rostos risonhos
fantasias e máscaras,
a observava

Purpurina e confetes! todos
os foliões
escorriam pelo salão

Exceto o Pierrot,
que tristemente chorava
pelo amor da Colombina,
sua ilusão de carnaval.

Insone



Os tubarões fazem ziguezague dentro do aquário
e eu mastigo as pétalas dos jardins da babilônia,
lendo as falhas descritas nas linhas de um diário
A reflexão alimenta minha atormentada insônia.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ela ergue os braços e dança






Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
alheia ao abismo cavado por seus passos
sem querer enxergar a silhueta da realidade
expondo intimidade num esgoto a céu aberto
espalhando lama em quem tiver por perto

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
equilibrada na corda-bamba da grana fácil
perdida,alienada no labirinto das ilusões
fantasiando romances baseados em tolas canções
que fazem a trilha sonora do seu mundo de plástico

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
rindo de satisfação no meio da fumaça
fazendo pouco diante da própria desgraça
se divertindo nas páginas de sonhos decadentes
descalça dando passos sobre brasas incandescentes

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
murmurando provocações para um homem qualquer
realmente disposta a fazer qualquer coisa que ele quiser
a entregar seu corpo as garras das paixões efêmeras
e viver aventuras que acabam em camas grandes ou pequenas
na rotina dos esquemas, vícios e emoções de uma zona boêmia.

Ode ao amigo poeta Cezar Sturba


Foi numa noite ancestral
que caminhamos a cinco palmos do chão


Foi numa noite interminável
que acendemos velas com as pontas dos dedos


Cezar já havia cavalgado cinco mil milhas
de dentro para fora de si


E as respostas sopravam no vento
enchendo nossos copos de entusiasmo


As cicatrizes das velhas correntes
que aprisionavam nossas percepções

ainda ardiam nos nossos pulsos
marcados pelas amarras da ordem capital


Ele gritou e blasfemou e abençoou
e tão grande berro sóbrio ecoou etilicamente


Meu amigo de profundidade oceânica,
que a chama da inquietude criativa

em nome da devota experimentação,
permaneça acesa em teus miolos inquietos.