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Mostrando postagens de maio, 2009

Toada Íntima

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Espinhos rasgam-lhe alma e mãos até as pontas dos dedos frios e molhados em nome do amor de pétalas negras que mantém seu coração preso e torturado exalando o odor venéreo da desilusão.

Ayahuasca

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Solta os cabelos quero teu beijo: doce incógnita Estaremos ligados ao cordão de prata quero vê-la sorridente, nua, leve e descalça pelas margens do rio até chegarmos ao campo das árvores encantadas entoaremos cânticos indígenas através das aldeias na tradição milenar das tribos abençoadas.

Pauperum spiriti est regnum coelorum

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Os sinos tocam! As badaladas, os trovões e a chuva, rasgam o entardecer. A freira entra na igreja. Hábito molhado. Meio-riso baixo, abafado. Ela senta no confessionário. O bispo irá ouvi-la, à antiga. - O que houve minha filha? A voz do prelado nunca lhe pareceu tão afeminada. Numa tom de devoção afetada, ela diz satisfeita: - Cometi pecados mundanos. - Mas o pecado é humano, demasiadamente humano - E agora, eu abomino profundamente a igreja. - Minha filha, você é uma freira. Ela continua: - Dizem que somos o depósito de lixo da história e talvez seja mesmo verdade. Cometemos os mais terríveis e absurdos enganos. - Não atentai contra a santa decência do clericalismo. - Sempre demos as costas a ciência e ao que a filosofia ensina. - Não insista minha menina! - Sempre estivemos do lado mais conveniente e tapamos os ouvidos para os gritos dos inocentes. - Os livros que tem lido estão lhe fazendo mal. Filha, o povo precisa dos nossos dogmas. - As pessoas precisam permanecer dop...

Idealização

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Corroído pelas relações fraudulentas no mesmo ímpeto que fez Pigmaleão esculpir a imagem da mulher ideada esboço cada um dos seus traços e imploro a Afrodite para materializá-la Mas nada acontece e ela para sempre será só uma página desenhada.

Soneto Cangaceiro

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Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião do brilho morticínio Comandou muitos cabras da peste, almas sem coração E desmoralizou a macacada da volante policial no sertão Esfregando nas regras da justiça as alpercatas do latrocínio Foi do Padinho Ciço que veio a patente da guarda nacional Pra enfrentar a Coluna Prestes no grande território cearense Só resolveu fazer melhor uso da regalia de bom penitente Pra amedrontar quem quer que fosse à ponta fria do punhal Parecia dar ordem e lapada até na vegetação inclemente Espalhou reinado escabroso na seca de sol incandescente Acobertado pelos coiteiros que enchiam suas cartucheiras O Capitão fazia explodir no céu a munição do rifle potente Amava Maria que era mulher bonita e de sangue quente Vaidoso para se deixar filmar e fotografar com sua cabroeira.

Na mesa do bar

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Na mesa do bar tinha uma dose de uísque tinha uma dose de uísque na mesa do bar tinha uma dose de uísque Na mesa do bar tinha uma dose de uísque. Sempre me lembrarei desse detalhe nas retinas de minha vida tão solitária. Sempre me lembrarei que na mesa do bar tinha uma dose de uísque tinha uma dose de uísque na mesa do bar na mesa do bar tinha uma dose de uísque.

Cicatriz

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O que se foi nas ruínas do teu olhar de foto em sépia, cacos das palavras repetidas, mágoas por mentiras ditas Restou intacto no completo imaterial do afeto imensurável entregue em mãos e amargo do último beijo dado.