domingo, 15 de fevereiro de 2009

A lágrima do Pierrot




A Colombina, alheia
entre rostos risonhos
fantasias e máscaras,
não o percebia

O Pierrot, contido
entre rostos risonhos
fantasias e máscaras,
a observava

Purpurina e confetes! todos
os foliões
escorriam pelo salão

Exceto o Pierrot,
que tristemente chorava
pelo amor da Colombina,
sua ilusão de carnaval.

Insone



Os tubarões fazem ziguezague dentro do aquário
e eu mastigo as pétalas dos jardins da babilônia,
lendo as falhas descritas nas linhas de um diário
A reflexão alimenta minha atormentada insônia.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ela ergue os braços e dança






Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
alheia ao abismo cavado por seus passos
sem querer enxergar a silhueta da realidade
expondo intimidade num esgoto a céu aberto
espalhando lama em quem tiver por perto

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
equilibrada na corda-bamba da grana fácil
perdida,alienada no labirinto das ilusões
fantasiando romances baseados em tolas canções
que fazem a trilha sonora do seu mundo de plástico

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
rindo de satisfação no meio da fumaça
fazendo pouco diante da própria desgraça
se divertindo nas páginas de sonhos decadentes
descalça dando passos sobre brasas incandescentes

Ela ergue os braços e dança
sensual,visceral, carnalmente
murmurando provocações para um homem qualquer
realmente disposta a fazer qualquer coisa que ele quiser
a entregar seu corpo as garras das paixões efêmeras
e viver aventuras que acabam em camas grandes ou pequenas
na rotina dos esquemas, vícios e emoções de uma zona boêmia.

Ode ao amigo poeta Cezar Sturba


Foi numa noite ancestral
que caminhamos a cinco palmos do chão


Foi numa noite interminável
que acendemos velas com as pontas dos dedos


Cezar já havia cavalgado cinco mil milhas
de dentro para fora de si


E as respostas sopravam no vento
enchendo nossos copos de entusiasmo


As cicatrizes das velhas correntes
que aprisionavam nossas percepções

ainda ardiam nos nossos pulsos
marcados pelas amarras da ordem capital


Ele gritou e blasfemou e abençoou
e tão grande berro sóbrio ecoou etilicamente


Meu amigo de profundidade oceânica,
que a chama da inquietude criativa

em nome da devota experimentação,
permaneça acesa em teus miolos inquietos.

Ampulheta





O tempo
escorrendo gradativamente
na ampulheta

A brevidade do sempre
e a relatividade do nunca

No milésimo de um segundo
de um minuto
de uma hora

Na hora de um dia
de uma semana
de um mês...

Através das vibrações
cadenciadas pela energia
do absoluto

Intervalos simétricos entre dias
e noites perfeitas

Construindo sinfonias
espalhadas no universo pleno

Em qualquer que seja o instante
do eterno presente
que seja o momento mais importante
da vida inteira.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

No silêncio da reflexão





Fatos não podem
ser forçados,
mas uma gota
do meu sangue
abstrato
é derramada
em cada uma
das letras esvaídas
na minha palavra escrita

Não escrevo
para agradar ninguém,
apenas para expressar
o que sinto
Na precariedade
dos meus versos,
não minto e
é isso que me convém

Abutres,
corvos,
urubus e todos
os pássaros
malditos
estão a
me contemplar

Devo parecer
um bom banquete,
mas caso um deles
ouse se aproximar
levará uma bala
no meio da testa

Ouço uma pergunta
dando círculos
pela estrada:
"- Onde estão seus amigos?"
Nada digo.
São as vozes
das mulheres louva-a-deus
que devoram o macho
Os bons morreram,
estão longe
ou muito ocupados
para escutar desabafos

A ética embrionária
passeando
na minha cabeça
é ferida pela
indiferença

No silêncio,
eu oro e
insulto,
para comungar
por trás da fumaça
do cigarro.

O Castelo de areia



Após léguas atravessando dunas
que separam as mentiras
das verdades
Molho os meus pés no mar
de lágrimas
das mulheres abandonadas
Banho-me nos feixes
de trevas e luz
sendo visto
por almas desencarnadas
Nas águas onde embarcações
atraídas
pelo cântico traiçoeiro
das sereias
Colidiram e naufragaram
na vastíssima realidade
das ondas do nada
A eterna penumbra veste
o limite
entre o mundo dos vivos
e dos mortos
E é já tarde quando vislumbro
o enorme Castelo de areia
e suas muralhas
E é já cedo quando desvendo
o mistério agrupado
pelos sonhos irrealizáveis.

HINO NACIONAL BRASILEIRO II (versão dos Parlamentares do Congresso Nacional)




Os gritos do Ipiranga as margens poluídas
De um povo enganado o brado alienante
E o sol da futilidade, em raios fúlgidos
Brilha no céu da Pátria a todo instante.

Se o penhor dessa desigualdade
Conseguimos aceitar do sul ao norte,
Em teu seio, ó Libertinagem,
Já não há quem desafie a própria morte!

Ó pátria amada,
Ignorada,
Salve!Salve!

Brasil, um pesadelo intenso de crimes vividos
Sem amor ou esperança a terra desce,
Se em teu cinzento céu, risonho e cínico,
A imagem do cruzeiro desaparece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, ridicularizado colosso,
E o teu futuro espelha uma utópica grandeza.

Terra devastada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó pátria amada!

Dos filhos desse solo já não és mãe tão gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Acomodado eternamente em berço esplêndido
Ao som do mar e a sombra do céu moribundo
Envergonhas, ó Brasil, blefe da América,
Ofuscada pelo sol do Novo Mundo!

Do que a terra tão saqueada
Teus tristonhos, incinerados campos, não têm mais tantas flores;
“Nem nossos bosques tantas vidas”,
“Nossa vida” no teu seio “menos amores”.

Ó Pátria amada,
Ignorada,
Salve!Salve!

Brasil, do tesão eterno seja símbolo
Cortesã dos políticos excitados,
No luxurioso verde-louro desta cama flâmula
Caos no futuro e vergonha no passado.

Mas, não há quem erga com justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não quer mais luta
E teme, quem te adora, a própria morte.

Terra devastada
Entre outras mil,
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!

Dos filhos desse solo já não és mãe tão gentil,
Pátria amada,
Brasil!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Crepúsculo e a Dança Do Pássaro


O crepúsculo cai

pedaço
por
pedaço

E no ensejo da meditação contemplativa

Ouço o cântico
de despedida
do
pássaro

Que em vôos rasos dança à minha vista.

Obsessão




Num recanto frio e silencioso
do solitário mundo claustrófobo
preservado no fundo do quarto

Tendo a alma amarga torturada
escrevendo ao longo das paredes
rabiscos tortos em linhas verticais

Amontoando lembranças soltas
oscilando em medos abissais

Amordaçando uma vontade louca
de morrer e descansar em paz.

O Pergaminho dos ossos velhos e os lambedores de diamantes






A mesma correnteza
que arrastou meus ancestrais nos navios negreiros
trouxe-me o pergaminho dos ossos velhos
num baú que devolvi ao mar
afundando nele os meus mais tenebrosos medos

Tenho lido o manuscrito
e aprendido a não jogar diamantes aos porcos,
mas quando necessário mergulho na lama deles
São esses pequenos e mundanos prazeres
que me fazem sentir forte,
por mais de um milhão de vezes

Vejo o homem e sua ambição insaciável
que busca pela fantasia social
na qual melhor fica adequado
Até que ponto eu e você,
não passamos de meros escravos?!

Soltem os pássaros das gaiolas
e parem de alimentar sua crueldade caprichosa
As mais torpes frustrações estão refletidas
na maneira como confinam os seus bichos
Você pede para que não sugira isso
e eu pergunto: quais são seus animais de estimação?!

Quando pareço dançar conforme a música,
eu costumo bater acidentalmente na vitrola,
só pra arranhar o velho disco e mudar de faixa
no momento em que ninguém prestar atenção

Finjo achar graça nas piadas dos políticos
que falam seriamente no picadeiro,
na pretensão de usar meu isqueiro
ajudando os indignados a tentar pôr fogo no circo

Farto de brincar na lama,
eu parto sem deixar os porcos sujarem meus diamantes
Permito apenas que eles lambam todos eles.

Eclipse do meio-dia (numa estrada deserta)




No desolado semblante,
do meio-dia

Na estrada
desalmada,

Onde o sol permite,
Onde a lua abomina

Sem esperança
ou água,
Sem bússola
ou horizonte,
Sem contar
pegadas

As curvas e
a distância
Reduzem
meu pensamento

a nada.

Alquimia


Que meu toque de chumbo
não venha a ferir a beleza
da meiga pureza do amor,
mas que seja por ele
transformado em ouro,
Para sempre.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Alucinação do negro Novembro



Respirei nuvem

e soprei alucinações

no negro novembro

da minha mágoa,

que queima

sob o ócio

das divindades

e congela

sobre o ódio

dos homens


Vomitei

no prato de poeira que comi

até transbordar

ao longo da mesa farta

Enquanto assistia

sua dócil frivolidade

sendo devorada

pelas feras na praça


Foi neste vislumbre

de imagens claras

sem fala

e de olhos abertos

pro espaço

que engoli o híbrido

sabor das canções

no ritual angelical

das almas.



"Phábio Pio"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Carrossel




Pulsam
os relógios
em voltas
que dispersam
o discernimento,
nas muitas vidas
que resvalam
em círculos
ou pelas voltas
que o mundo dá.


"Phábio Pio"

Fugaz



Se voo,
como pássaro
em labaredas,
através do
dia
que se apaga

Se levo comigo,
na noite
que destila
enigmas,
o pecado

Se pouso
na tua cama
e te acendo
aonde tua alma
exala
um ciranda
de pétalas
em chamas

Não importa,
se amanhã
seremos estranhos
Não importa,
se talvez
nem nos cumprimentemos

Apenas diga
que me ama
Repita servilmente
que nos amaremos
pra sempre,
mesmo que o pra sempre
não dure sequer
uma semana.


"Phábio Pio"

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pequenos arautos da morte




E são crianças
indesejadas
Mal nascidas,
quase abortadas
Embolando na
periferia

Crescem brincando
com armas
Metralhadoras,
pistolas
engatilhadas

Comendo e
cheirando farinha
Perigosas crias
da má-sorte
Acendendo bagulho e
apagando luzes

Pequenos arautos
da morte
Não existe
piedade,
na cartilha da Lei
do mais forte

Criados para
sorrir ao matar
Tirando vidas e
perdendo as vidas

Morrendo para enfeitar
o jardim das cruzes.

Tempos Modernos




Na vida dos quase-homens, homens, mais que homens
Mais e mais dependentes das próprias criações
Na vida dos mais que homens, homens, quase-homens
Que a cada passo são menos livres
Na vida dos homens, quase-homens, mais que homens
Que cada vez mais se desumanizam
A paz é cada vez menos evidente.


"Phábio Pio"

Angústia apaixonada




Apago o fogo,
que eu mesmo
acendi
Como quem apaga
um mero
fósforo
Mas fica no ar
aquela angustia
apaixonada,
de uma doce
felicidade
que nunca senti.

Sonho nu



O aplauso silencioso
do teu olhar
Expressa o desejo
de querer voltar
A dar voltas
no arco-íris da lua
Lento e leve
como bolha de sabão
Flutuando
na tua imaginação nua.

"Phábio Pio"

Homem cheio, copo vazio




Ando por ruas mal iluminadas
Rondo por estradas silenciosas
Faço orações para santos surdos
Ouço santos que não dizem nada
Pouso copos em bares ordinários
(Fácil é encher um copo de bebida
Difícil é esvaziar a minha tristeza).

Infanticídio




Tentei endurecer
sem perder a ternura

Aconteceu algo de errado,
caro Che

Boa parte de mim
teve que morrer

E foi justo
o meu lado ingênuo
Ligado num traço de edipianismo
Inimigo de qualquer forma de poder

Pensava abrigar no fundo do peito
Apenas um menino,
mas eram tantos
Que infanticídio triste de se cometer.


"Phábio Pio"

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Madrugada e Presépio




Subo e desço as escadas
imaginárias,
pelas ruas sujas, feias
e solitárias,
nos confins do país das novelas
e maravilhoso carnaval,
que tampouco se importa
com suas crises degeneradas,
fome e crianças mortas

Gigolôs, putas sorridentes,
automóveis,álcool e drogas
Não confio em ninguém,
com mais ou menos
de trinta e dois dentes


Rogo que me perdoe
a divina onipotência,
onipresença
e onisciência
da mídia nas faces
e mentes bovinizadas,
que saboreiam as
miragens do entretenimento
de vômito e lama,
dentre tantas coisas,
nas dádivas das formais
redes sociais


O espetáculo de Hussein,
Bin Laden e Kadafi,
as palmas para o sapato
na cara do Bush,
corrupta e imunda
política nacional,
capitalismo em plena decadência,
morte da censura sexual
Nada pode impressionar
a inerte geração internet


“Sem pódio de chegada ou
Beijo de namorada”,
eu sigo para casa,
onde há um presépio de Natal
e “uma sobremesa
me espera”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O toque da saudade



O toque,
que vem de longe
Que penetra, dói...
que arde

O toque
inusitado,
gelado
Que dá um nó
na garganta
e mal me permite
respirar

O toque
que mareja
a minha vista
Que vai e vem,
sem avisar

Traz sua voz,
seu riso,
o sabor
do teu beijo

O toque
da saudade
que vai fundo
na alma
Só pra
me torturar.