
Não era noite de verão, mas foi num sonho quente,
que conduzi cegos através de campos minados nas ruas,
até o bar da encruzilhada iluminada pela luz fria da lua,
onde encontrei e sentei com Lúcifer para tomarmos uma doses.
Inspirado, Ele tocou velhas canções endiabradas no seu violão,
acompanhado pelo coral dos homens sem visão e gentis.
Ouvi atentamente, cada frase compassada por solos manhosos.
Em pé na mesa, bati palmas, curtindo os baiões e os blues mefistólicos,
dançando ao lado, uma gata de córneas douradas, decotada...
Provocante e sexy, ela recitou versos perversos dedicados ao diabo.
Após sua apresentação Belzebu voltou à mesa parecendo preocupado.
Convidou a garota maliciosamente para ficar sentada ao nosso lado.
Eu, curioso, perguntei-lhe qual sua relação com tanto caos e destruição,
desigualdade, fome, miséria e todas as mazelas que nos assolam.
A resposta veio num reclame quase mudo, entre dentes crestados:
- Meu chapa, Eu estou cansado dessas coisas e quero aposentadoria.
O problema está no próprio homem e nas coisas que ele cria.
Não sou de todo culpado e nunca deixaram isso devidamente claro.
Calou por meio minuto, jogou para cima a fumaça do bazeado pra dizer:
- Garanto que boa parte do dolo é dessa dama sentada conosco,
Permita apresentá-la: Caro amigo, essa é a Intolerância de sobrenome
Ganância e que presta serviços usando o pseudônimo de Miss Vaidade.
Desde a aurora dos tempos somos casados e ela vem abusando da humanidade,
Manipulou a verdade, assim como também sabotou a religião com dogmas,
capitalizou a sorte nos pecados e fez dos cifrões o alimento da insanidade.
Estou te confessando isso e digo ainda que se não fosse a “Lei de Deus”,
juro a você que Eu já tinha me divorciado e encerrado esse compromisso.
Acordei meio tonto e muito suado, sei que deve ter sido por causa do uísque e do calor que esbaldavam voluptuosidade por todos os lados daquele lugar refinado.
A Igreja inventou o inferno, Dante pintou o cenário e quem crê nisso tudo é um otário.
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